Olho em volta e constato que afinal tudo dorme, não apenas as consciências. Até o gramscismo empedernido de nossa cultura de massa vez ou outra cochila. Quando isso acontece, é a realidade, olhos arregalados, que nos assombra, como um morto desperto em pleno funeral.
Não foi o que aconteceu com o filme Tropa de Elite? Concebido como repeteco do clichê “policial bandido”, o filme não pôde esconder a cumplicidade moral e material dos intelectuais com o crime. Algo semelhante ocorre no recém-lançado Assalto ao Banco Central. Adotando o mote “as elites criminosas e corruptas por trás de tudo”, o que o filme realmente flagra é a socialização do crime: sua transformação em atividade profissional especializada, meio de vida generalizado e fonte de ascensão social.
Combatido muito frouxamente e estimulado por um ambiente de regalias judiciais, o crime já assumiu o estatuto de direito adquirido, força da natureza, anônimo e definitivo fato social. Para todos os casos, o Tico e o Teco dos analistas só conhecem duas soluções possíveis: a descriminalização e a transformação social. As duas propostas, claro, são uma só e a mesma. Vejamos um caso.
Poucas semanas atrás, o advogado Jeferson Badan invocou a “ética profissional do bandido” para justificar a recusa de seu cliente, latrocida confesso, em apontar o comparsa. Diante das câmeras de tevê, o bandido lamenta a morte da vítima – reprovando-lhe a infração ética de ter reagido – como se narrasse um acidente de trabalho. Liberado depois do interrogatório, o criminoso voltou para casa sorrindo, a consciência tranquila, o sentimento do dever cumprido, um ar superior de “nada a declarar”.
A relação desse episódio com a revolução social, da qual falou o professor Olavo, vai além do flagrante de decomposição semântica, obra da politização do discurso moral, tema tratado quinze anos atrás n’O Jardim das Aflições. No presente estado de coisas, a matéria decomposta das palavras já não exala fedor, e podridão sobe mas é de dentro das almas.
A “ética profissional do bandido” é obra do império da moral fortuita, atomizada, descartável e politicamente motivada, para cuja promoção convergem o aparelho repressivo e a educação estatais, o assédio raivoso dos ativistas e a propaganda dos meios de comunicação de massa. Na esteira da promoção social do lixo e da destruição dos valores tradicionais, a revolução vai dando à luz seu filho iníquo: a sociedade estruturalmente imoral
Se revolução social é “uma mudança radical dos meios de alcançar riqueza, prestígio e poder”, com a subordinação de toda atividade socialmente significativa aos objetivos políticos do Esquema, nenhuma mutação mais completa do que conferir ao crime prestígio, glamour e legitimidade, enquanto as atividades realmente legítimas são corrompidas pelo avanço do ganguesterismo político.
Ostentando com orgulho uma carreira criminosa iniciada ainda nos anos 60, o bem-sucedido Esquema revolucionário ainda não produziu o paraíso terrestre, mas já promoveu a ascensão social do crime.
É com justiça, portanto, que a nova elite não cessa de gambar-se por ter vindo de baixo. De fato, emersa do mais profundo esgoto, ela soube galgar os postos mais elevados. O problema é que trouxe consigo a merda, pódio logo estendido aos alpinistas das alturas abissais.
Fruto maduro da criminalidade política, a política de descriminalização (das drogas, do aborto etc.) é sobretudo seletiva. Ela não apenas some com os próprios e velhos crimes como também inventa novos para todos os demais. E nas horas vagas, para desanuviar, combate com sanha implacável a ameaça dos petiscos e os riscos da bituca malvada.
A quem, com a eleição de Tiririca, Romário e celebridades do tipo, acreditou já estivéssemos no fundo do poço, peço que aguarde com paciência o fim da picada. Depois dos mandatos presidenciais de Lula e Dilma, ainda nos resta o reinado de Fernandinho Beira-Mar. Aos que até lá esperam acordar no país dos seus sonhos, sugiro veementemente que continuem a cochilar.
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