Nada evidencia tão claramente a motivação política por trás do assédio judicial movido contra o coronel Ustra quanto o protesto organizado em frente ao fórum na hora exata em que, lá dentro, a justiça – cega ainda, não sei, mas certamente nada surda a certas vozes particularmente ruidosas – ouvia o depoimento das testemunhas de acusação ante o berro de fundo das palavras de ordem.
Curioso é que a imprensa noticie o protesto sem informar um só como, quem, quando, onde ou porquê. Quem organizou? De onde vieram? Quem pagou a conta? Ninguém sabe responder porque ninguém quis perguntar. Para a imprensa, certas manifestações – i.e. as manifestações certas – são fatais, impessoais e inocentes. São como as águas de março ou o Dia das Mães.
Mas se a clamorosa causa da verdade histórica tem a seu favor o testemunho das pedras, da água e do ar, são as testemunhas humanas que dão prova da mais firme caradurice.
A exemplo daqueles que, regressando de vidas passadas, retornam invariavelmente Césares ou Cleópatras, as testemunhas do caso alegam ter sido todas torturadas pelo comandante do Doi-Codi do II Exército em pessoa, sempre – jamais por um subalterno anônimo que não valha a pena processar. É o caso do ex-ministro Paulo Vanucchi, que, quanto a seus propósitos, já esclareceu:
“não sou (...) apenas porta-voz dos familiares: sou um militante político, tenho um projeto para o País e acho que todo tema só tem sentido se for projetado para o futuro.”
Não devemos perguntar, nem é preciso, a espécie de futuro que a militância do ex-ministro projeta.
Também é notável como a passagem pelo Doi-Codi abriu para muitos as portas da percepção. Joel Rufino dos Santos, por exemplo, passados 40 anos, de repente lembrou ter ouvido de um torturador (anônimo, esse?) a confissão do assassinato de Luiz Eduardo Merlino. Um feito e tanto para quem, durante o horário comercial, não acredita em memória “verdadeira”, assim mesmo entre aspas.
Mas o prêmio Aldous Huxley vai para o camarada Otacílio Cecchini, o qual, segundo diz, padecia as torturas do coronel Ustra quando, de repente, tocou o telefone. Era o Exército, teve logo certeza, e segue ele relatando a conversa nos dois lados da linha. Não sei como um preso, lá do cume do seu pau-de-arara, foi capaz de identificar e acompanhar uma chamada telefônica. Deve ter sido pelo ringtone (“eu te amo, meu Brasil, eu te amo”) do coronel, que além disso deixou o viva-voz ligado. Fica assim provado que o coronel de fato é um maldito ligador.
Abaixo, com a palavra, o cel. Ustra.
E agora o presidente Figueiredo, em 1979, assinando a Lei de Anistia.
E em 85,entre simpático e irritadiço, entrevistado por Leila Cordeiro.
0 comentários:
Postar um comentário