Deliberadamente ou não, foi o que fez a repórter Veruska Donato, na edição da última terça (17 de agosto) do Jornal Nacional.
Destacando alguns pontos de uma entrevista coletiva de Dilma Roussef, disse a repórter:
"Sobre o aborto, um dos temas do documento, Dilma afirmou que é a favor [pausa para tomar água] de que a legislação atual seja cumprida."
Quando assisti à reportagem pela primeira vez, cheguei a pensar, naquele segundo em suspenso, que a petista tinha desistido de mentir.
O curioso é que, como se pode ver no discurso original (em torno de 7m30s), a própria Dilma comete, no mesmíssimo ponto, uma pausa (ou ato falho, que seja) semelhante.
Percebam também como o texto da repórter altera o sentido da declaração original. O que Dilma realmente disse foi:
"E quanto ao aborto, eu sou a favor [pausa menor, só pra cuspir] da manutenção da legislação."
Desejar manter a legislação no futuro e ser a favor de seu cumprimento no presente são, é óbvio, coisas bem diferentes. Algo, porém, as duas frases têm em comum: ambas subentendem a premissa (completamente falsa, mas essencial à estratégia do movimento abortista) segundo a qual a legislação brasileira contempla algo como um "aborto legal". Foi impondo à lei essa interpretação que o movimento conseguiu introduzir o aborto nos hospitais públicos.
Em suma, o que a candidata petista faz, ao emitir essa declaração aparentemente antiabortista, é na verdade consolidar uma etapa da estratégia pró-aborto, facultando ao abortismo a obtenção (ainda que parcial) de seus fins sem necessidade de qualquer mudança na lei. Não há duvida que de, esticando a baladeira, pode-se obter praticamente tudo mediante o truque de reinterpretar a legislação à luz, ou à treva, de tais e quais interesses.
Não custa lembrar que, quando ainda pré-candidata, o discurso de Dilma era diferente. E quanto mais se recua, mais aumenta a diferença.
Por isso, palmas para a repórter Veruska Donato, cuja técnica jornalistica é exemplarmente adequada à realidade brasileira.Já desde o terreno baldio de Nelson Rodrigues que o único jeito de obrigar a esquerda a dizer a verdade é invertendo tudo, tudinho o que ela diz.
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