Abro a internet ao acaso e o sorriso se abre, em nova aba. Quem foi você na vida passada?, interroga o banner, enquanto Cleópatra, D. Pedro I e Albert Einstein piscam em flashes alternados. Descubra pelo celular. Apenas trinta e cinco centavos.
Não é espantoso, caro leitor, o progresso da humanidade? Não é de se rir consigo, assim, abobalhado? É a pergunta que sinceramente levanto, e quem tiver resposta que me fale. Pago o preço de mercado. Se acha pouco, que guarde para si a resposta; ou se resposta não tem que diga nem guarde, veja se a encontra até o fim desta crônica, e me faça em seguida o devido depósito bancário.
Digo que o progresso humano é espantoso, e a prova é que estou, reparem bem, visivelmente espantado. Épocas houve (falo de eras priscas e distantes, quando os animais ainda falavam, sim, ao telefone, porque só para falar é que serviam então aqueles tais – os telefones, meu bobo, não os animais!) em que o celular definia no máximo quem você podia parecer (e consequentemente, com alguma sorte, também comer) numa balada de sábado. Mas hoje, vejam vocês, o celular é um portal para vidas passadas. Não é um progresso imenso? E não é um espanto? Quanto a mim, estou espantado. Se não disse antes, digo-o agora: estou (reparem bem!) visivelmente espantado.
Não demora muito e o celular nos dirá, além da vida passada passada, também a vida passada presente, com a precisão e o detalhe de muitos megapixels e outros tantos bytes. Será, creio eu, o fim da Psicanálise, ou talvez o começo da Psicanálise de bolso, ou ainda, e ainda melhor, do confessionário portátil.
Otimista, imagino um futuro em que o futuro virá estampado em ímãs de geladeira. Ouviremos então profecias de fogões sisudos e, se necessário, as pias nos darão conselhos, em gotas de sabedoria.
Mas o que de fato mobiliza minhas esperanças não é a previsão do futuro nem a posvisão do passado. Que adianta saber-me apenas quando ausente? Que adianta ser, se não estou? Guardo o sorriso mais rasgado e o mais profundo espanto para o dia em que souber – agora, a cada exato e renovado instante – verdadeiramente quem sou.
2 comentários:
Olá,
Você mora em Fortaleza? Passou pela UFC?
Por favor, entre em contanto.
Bruno
Tudo beleza, Bruno?
Passei pela UFC mas já não mor(r)o em Fortaleza. Meu e-mail é fernandodemorais@gmail.com.
Abraço.
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