Relíquias de notícia velha, ou Memórias do que ninguém viu

A essa altura do campeonato, já virou notícia velha o fato de a Globo ter retirado do ar seu próprio comercial de aniversário ao menor sinal de insatisfação petista. Bastou uma chorosa e longínqua acusação de “propaganda subliminar”, e pronto: o vídeo estava fora do ar. A notícia, igualmente, veio à luz num dia (para gáudio e gozo da petuléia desvairada), e morreu no dia seguinte, cumprindo o que parecia ser a carreira habitual dos fatos.

A notícia é o mais estranho dos seres vivos: tal como os demais, ela também nasce, cresce, reproduz-se, envelhece e morre; mas sobretudo morre, até antes de nascer, cedendo lugar a espécimes mais ao gosto da estação ou mais aderentes ao solo, resultando daí o florido e aflitivo jardim (botânico ou não) em que se tornou o jornalismo brasileiro.

Não entendam mal. Quando disse que a notícia era já velha, não quis dizer velha de dias apenas, ou mesmo de semanas, mas velha de anos: há anos que a imprensa brasileira e os grupos econômicos a ela associados servem (por pensamentos, palavras, atos e omissões) de modo escandalosamente submisso ao projeto político do PT. A primeira notícia (já velha também, apesar de abortada) que tive a esse respeito veio até mim em 2003, ano I da Era Lula.

Naquela época, eu cumpria estágio curricular no jornal Diário do Nordeste. Era repórter de economia. O Diário pertence a um dos mais poderosos grupos econômicos do Ceará, o grupo Edson Queiroz. Suas atividades vão desde a fabricação de eletrodomésticos à indústria de água mineral, da educação (possuem uma universidade, a Unifor) à distribuição de gás de cozinha, sem contar as empresas jornalísticas (um jornal impresso, algumas rádios e três TVs, dentre as quais a retransmissora local da rede Globo, a TV Verdes Mares.

Entrei no jornal para um período de experiência de seis meses, dos quais eu deveria obrigatoriamente cumprir, por exigência acadêmica, um mínimo de 90 horas. Escolhi a editoria de economia porque, exausto das patifarias do meio cultural alencarino, pensava encontrar ali um ambiente menos canalha, no que estava, aliás, redondamente enganado. Mas isso não vem ao caso.

O que vem ao caso é o seguinte: o início do meu estágio (abril/maio de 2003) coincidiu com a realização do 13º Cine Ceará. O Cine Ceará é um festival de cinema que acontece anualmente em Fortaleza. Insignificante, picaresco e fraudulento até a medula, o festival foi o que sobrou do projeto cinematográfico de Paulo Linhares, ex-secretário de cultura do Estado.

(O sujeito meteu na idéia de fazer do Ceará um pólo produtor de cinema, e não se podia negar a racionalidade econômica do projeto. Reparem bem: para imprimir imagens numa película fotossenssível é preciso luz, correto? Correto, correto. Sem luz, está claro, não se faz cinema. Ora, sendo Fortaleza a Terra da Luz, conforme folder ilustrativo da Secretaria de Turismo, por que não explorar esse manancial inesgotável de matéria-prima?)

O projeto evidentemente malogrou, e Fortaleza tornou-se antes um pólo de cineastros, mais do que de cinema, todos de olho no dinheiro dos prêmios, concursos e leis de incentivo. A realização maior de Paulo Linhares foi proporcionar alguns poucos anos de luz, câmera, sombra e água fresca a algumas viúvas do Cinema Novo, as quais seriam, já naquele primeiro ano de governo Lula, devidamente aboletadas na Secretaria do Audiovisual, órgão do Ministério da Cultura. Mas isso também não vem ao caso.

O que vem ao caso, finalmente, é o seguinte.

Em 2003, Lula assumiu a presidência da República, eleito pelo PT, cujo número de chapa é 13. Em 2003, realizava-se a 13º edição (na verdade, era a 9º edição, pois o festival só surgiu oficialmente, e com esse nome, em 95, mas isso é o de menos) do Cine Ceará.

O fato é que a confluência desses fatores político-cabalísticos forneceu aos organizadores do evento o ensejo ou o pretexto para um salutar exercício de bajulação compulsiva.

E não digo compulsiva por exagero. Havia sem dúvida um toque, ou tique, canalhamente doentio ali. Já na vinheta de abertura do festival, puseram o Lula carregado nos braços do povo, trazendo, com sua apoteótica passagem, luz e cor ao mundo. O número 13, que compunha o título 13º CineCeará, saía direto de uma bandeira do PT, como podem ver abaixo (por coincidência não menos cabalística, a vinheta foi disponibilizada no YouTube faz uns poucos dias).



Mas a coisa não ficou por aí. A toda hora os apresentadores do festival faziam menção a Lula, ao 13, ao PT. Assim escancarado, explícito, safado mesmo, o puxa-saquismo repetiu-se a cada novo dia de festival.

Nos dias seguintes, vasculhei os jornais atrás da notícia e nada encontrei além da habitual e cotidiana babaquice. Uma notinha miúda, no jornal O Povo, mencionava longinquamente a coisa, mas sem contá-la na verdade. Quem não tivesse visto por si mesmo não saberia do que se tratava.

Na redação do Diário, perguntei ao pessoal encarregado de cobrir o festival onde estava a notícia. A reação do primeiro repetiu-se com os demais: o olhar perplexo, uma pausa e pergunta:“Foi, é? Cê tem certeza? Aqui ninguém viu nada”. Quando um ou outro, com o passar dos dias, admitia enfim ter visto alguma coisa, já logo dizia não ter visto nada demais.

E penso que não viram mesmo. Aliás, ninguém viu. Nem depois ficou sabendo.

Diante do que os fatos, velhos e novos, anunciam, penso sinceramente que ainda não vimos nada.

1 comentários:

Helder Melo disse...

Caro Fernando,
com muito gosto li esse seu post, pois a crítica cultural aqui no Ceará é uma palhaçada. O esquerdismo aqui é considerado cultura regional (quando não nacional). Essa vinheta do Cine Ceará é uma piada, o projeto do Ceará cineasta uma irresponsabilidade descontinuada. Cada vez mais a percepção de que, de fato, o brasileiro vive hoje fora da realidade. Já não consegue dar peso verdadeiro aos fatos, nem ordená-los em relação uns aos outros, sonha projetos loucos e quando eles fracassam é chamado de visionário. @#%$¨que pariu! Eu fiquei aqui neste estado louco. Não imaginas como sofro, peço até orações. Em terra de louco, quem tem um olho é DOIDO! Abraços da terra da luz...